Poema escrito no chacoalhar do trem de Zagreb para Budapeste. Se eu lembrasse que tinha esse poema aqui no computador, não teria ficado tanto tempo sem postar.
Penso em mudar alguns versos, mas vou publicar mesmo assim...
Textos visuais fazem bem pra alma.
Paisagem Húngara
O céu riscado pelas nuvens traçantes,
tangentes ao cinza acumulado,
são ângulos desenhados pelos raios
do sol que se esconde em vergonhas.
As casas dispersas, largas, perdidas,
floreiam no entorno da estação
e o Lago estagnado se esverdeia de coníferas.
Atravesso um rio que desconheço.
Vejo casas de singular arquitetura.
Vejo o azul que em todo o mundo é o mesmo.
Vejo o mesmo que minha mente procura.
O cenário tão distinto de um lugar que nunca vi
causa-me imensas saudades.
Sinto falta das tropicalidades
apesar do calor daqui.
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23 de junho de 2010
26 de novembro de 2009
Gare du Nord
E lá venho eu de novo com ótimas notícias!
Este blog me dá sorte. Desde a sua criação sempre tenho coisas boas para contar aqui. É claro que algumas tristezas também me abateram durante a existência dessa página, mas essas eu guardo para mim.
O que tenho para contar hoje é que terei mais dois trabalhos publicados. Estou feliz demais! Outro conto meu sairá em coletânea, dessa vez pela EdUFF (Editora da Universidade Federal Fluminense). Fiquei muito satisfeita pela classificação com o conto, mas confesso que fiquei ainda mais contente porque também fui uma das vencedoras na categoria Poesia. Pela primeira vez terei um poema publicado em livro e a primeira vez, a gente nunca esquece. Segue então o meu poema vencedor, uma singela homenagem à cidade Luz, tantas vezes contada e cantada.
Quem vai a Paris e não se sente artisticamente tocado, não tem coração.
Gare du Nord
Agora desejo partir-me ao mundo
Procuro perder-me entre as estações
Por entre calçadas, homens, nações
Quero o distante, o presente, o profundo
Vou contorcer-me nos ferros dos trilhos
Tantos ferros retorcem na cidade
Deixo na “Gare” o resto de saudade
Adeus ao país, ao passado, aos filhos
No vagão das viagens, vivo só
Não tenho endereço a que me escrevam
Esqueço-me acompanhada de impressos
Apanho o T.G.V. na Gare du Nord
Acerto entre caminhos que se erram
Sem raízes, só me prendem os versos
Este blog me dá sorte. Desde a sua criação sempre tenho coisas boas para contar aqui. É claro que algumas tristezas também me abateram durante a existência dessa página, mas essas eu guardo para mim.
O que tenho para contar hoje é que terei mais dois trabalhos publicados. Estou feliz demais! Outro conto meu sairá em coletânea, dessa vez pela EdUFF (Editora da Universidade Federal Fluminense). Fiquei muito satisfeita pela classificação com o conto, mas confesso que fiquei ainda mais contente porque também fui uma das vencedoras na categoria Poesia. Pela primeira vez terei um poema publicado em livro e a primeira vez, a gente nunca esquece. Segue então o meu poema vencedor, uma singela homenagem à cidade Luz, tantas vezes contada e cantada.
Quem vai a Paris e não se sente artisticamente tocado, não tem coração.
Gare du Nord
Agora desejo partir-me ao mundo
Procuro perder-me entre as estações
Por entre calçadas, homens, nações
Quero o distante, o presente, o profundo
Vou contorcer-me nos ferros dos trilhos
Tantos ferros retorcem na cidade
Deixo na “Gare” o resto de saudade
Adeus ao país, ao passado, aos filhos
No vagão das viagens, vivo só
Não tenho endereço a que me escrevam
Esqueço-me acompanhada de impressos
Apanho o T.G.V. na Gare du Nord
Acerto entre caminhos que se erram
Sem raízes, só me prendem os versos
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4 de fevereiro de 2009
Fogo de Penitência
Poema escrito em 2006. Uma das minhas primeiras tentativas de fazer um texto que dialogasse com Fernando Pessoa. Ao ler recentemente o ótimo texto da amiga e escritora Ana Helena , lembrei-me que havia um dia escrito uma conversa em versos com o professor e que este diálogo devia estar perdido pelos meus arquivos antigos. Um dia devo reformulá-lo, mas deixo aqui o texto tal como foi escrito no meu primeiro ano de faculdade.
Fogo de Penitência
Toda a poesia malfeita se esvairece
A exorcizo em pira inquiridora
E no contorcer de suas chamas brancas,
Se internaliza até chegar ao átomo.
Todas as fogueiras não queimadas
Queimam no amassar do papel
Me atentam agora os sentidos e ouço claramente
No ranger da folha, o carbonizar da lenha
Se alguma Pessoa acha chuva na escrita
Eu afirmo que houve fogo anterior
A própria chuva que não chovia
E então meus olhos descobrem:
A água que cai e leva
Por vezes flui como nascente calma
Por outras, seu rebento lembra maré revolta
Que revolve cada gota e arrasta de volta ao nada.
Meu rosto sua ao segurar o grafite.
Há o medo de que as palavras sejam elas
E não que elas sejam as que queria eu que fossem
E tenham vida, gosto e não me obedeçam.
Toda palavra carrega o mal de ser minha
E eu carrego o dom de ser para elas
E eu as descarrego em fúria sobre a pauta
E elas me carregam até onde eu nunca chegaria sozinha.
Malditos os poetas que me deixaram ter rebanhos
Pois levo comigo a certeza de que há, em mim, um campo de girassóis
E por isso sofro:
Não consigo olhar para todos os lados.
Garanto porém, que se eu conseguisse,
Não estaria cá agora sonhando em poesia
Pois assim perderia tempo
Em sentir as relvas todas do mundo nas minhas mãos
Mas deixem descansar as relvas
Aprendi que só penso que seja maravilhoso tocá-las
Porque nunca em minha vida
Tive a oportunidade de deitar-me sobre elas.
Porém a água abrandou o incêndio
E a cada momento ela se faz mais intensa
E agora sei que é inútil acender fogueiras
Quando a chuva insiste em mostrar que só faz chover
Concluo que o poeta é iluminado pela chuva
E que o sol é o que evapora as coisas do mundo
Deixando-as claras diante dos olhos
Para que elas se reafirmem nos poemas
E que se tudo é nebuloso
Nuvens, idéias, pessoas
Espera pacientemente pelo vento
Que um dia fará derramar em ti.
Malditos os poetas que me levaram a bailes de máscaras
Pois descubro que nunca mais verei almas
E coloco agora a veste que tentaram me tirar Eles mesmos
E espero frente ao espelho branco ver-me nua uma vez
Intuo porém, que caso visse
Ao me deparar com a minha desgraça
Queimaria tal espelho por desgosto
E voltaria à dança por vergonha
Mas deixem bailar o corpo
O corpo de baile, o corpo da bailarina
Pois estes são mais agradáveis de observar
Já que os olhos são cegos para ver.
Então vou-me, vai-se e segue o dia
Como aquele que espera a noite
Cansado por entardecer
No crepúsculo dos anos que se passam
Sinto-me agora como dia que amanhece azul
Daqueles de palidez celeste
Que desponta após a tempestade
E se ilumina como se fosse uma coisa só
E não será mais necessário
Fazer fogo de penitência
Culpando as palavras mal escolhidas
Por um erro que é meu
E na dificuldade de expressar a integridade
Se afirmo que a mim pertence o erro
Ao menos confirmo
Que elas [ainda] são minhas
Então eis que na sensação de escrever o que me guardava
Transbordo os meus nimbus em mim, para mim
E afirmo sem medo:
Eu chovo.
Fogo de Penitência
Toda a poesia malfeita se esvairece
A exorcizo em pira inquiridora
E no contorcer de suas chamas brancas,
Se internaliza até chegar ao átomo.
Todas as fogueiras não queimadas
Queimam no amassar do papel
Me atentam agora os sentidos e ouço claramente
No ranger da folha, o carbonizar da lenha
Se alguma Pessoa acha chuva na escrita
Eu afirmo que houve fogo anterior
A própria chuva que não chovia
E então meus olhos descobrem:
A água que cai e leva
Por vezes flui como nascente calma
Por outras, seu rebento lembra maré revolta
Que revolve cada gota e arrasta de volta ao nada.
Meu rosto sua ao segurar o grafite.
Há o medo de que as palavras sejam elas
E não que elas sejam as que queria eu que fossem
E tenham vida, gosto e não me obedeçam.
Toda palavra carrega o mal de ser minha
E eu carrego o dom de ser para elas
E eu as descarrego em fúria sobre a pauta
E elas me carregam até onde eu nunca chegaria sozinha.
Malditos os poetas que me deixaram ter rebanhos
Pois levo comigo a certeza de que há, em mim, um campo de girassóis
E por isso sofro:
Não consigo olhar para todos os lados.
Garanto porém, que se eu conseguisse,
Não estaria cá agora sonhando em poesia
Pois assim perderia tempo
Em sentir as relvas todas do mundo nas minhas mãos
Mas deixem descansar as relvas
Aprendi que só penso que seja maravilhoso tocá-las
Porque nunca em minha vida
Tive a oportunidade de deitar-me sobre elas.
Porém a água abrandou o incêndio
E a cada momento ela se faz mais intensa
E agora sei que é inútil acender fogueiras
Quando a chuva insiste em mostrar que só faz chover
Concluo que o poeta é iluminado pela chuva
E que o sol é o que evapora as coisas do mundo
Deixando-as claras diante dos olhos
Para que elas se reafirmem nos poemas
E que se tudo é nebuloso
Nuvens, idéias, pessoas
Espera pacientemente pelo vento
Que um dia fará derramar em ti.
Malditos os poetas que me levaram a bailes de máscaras
Pois descubro que nunca mais verei almas
E coloco agora a veste que tentaram me tirar Eles mesmos
E espero frente ao espelho branco ver-me nua uma vez
Intuo porém, que caso visse
Ao me deparar com a minha desgraça
Queimaria tal espelho por desgosto
E voltaria à dança por vergonha
Mas deixem bailar o corpo
O corpo de baile, o corpo da bailarina
Pois estes são mais agradáveis de observar
Já que os olhos são cegos para ver.
Então vou-me, vai-se e segue o dia
Como aquele que espera a noite
Cansado por entardecer
No crepúsculo dos anos que se passam
Sinto-me agora como dia que amanhece azul
Daqueles de palidez celeste
Que desponta após a tempestade
E se ilumina como se fosse uma coisa só
E não será mais necessário
Fazer fogo de penitência
Culpando as palavras mal escolhidas
Por um erro que é meu
E na dificuldade de expressar a integridade
Se afirmo que a mim pertence o erro
Ao menos confirmo
Que elas [ainda] são minhas
Então eis que na sensação de escrever o que me guardava
Transbordo os meus nimbus em mim, para mim
E afirmo sem medo:
Eu chovo.
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17 de setembro de 2008
gozo-alvorada
Pensar atormento
As memórias todas
circulares...
Os vícios períodos férteis
A falta!
-Esquece
Não dá.
Acordar de manhã
dormir encaixado
rosto papel machê
olhos fundos alcoolatras
o vinho no chão
o movimento quase solar
lento
gozo-alvorada
os contatos pele-a-pelo
a partida...
virou e disse:some!
desvirou e sumiu
nunca mais o dia
alvoreceu
Gabriella Mendes
As memórias todas
circulares...
Os vícios períodos férteis
A falta!
-Esquece
Não dá.
Acordar de manhã
dormir encaixado
rosto papel machê
olhos fundos alcoolatras
o vinho no chão
o movimento quase solar
lento
gozo-alvorada
os contatos pele-a-pelo
a partida...
virou e disse:some!
desvirou e sumiu
nunca mais o dia
alvoreceu
Gabriella Mendes
15 de setembro de 2008
Datilografia
s. f., arte de escrever à máquina.
Assim está lá no dicionário.
Que máquina seria essa, eu me pergunto. Máquina de escrever?
Ora, e o computador não é uma máquina de escrever? Muda-se a abordagem, o meio, a técnica mas, a intenção é a mesma dos copistas do séc XV, dos homens que forçavam a prensa depois que o Gutenberg teve a brilhante idéia de usá-la para fins comunicativos. É também a mesma intenção das senhorinhas dactilógrafas que passavam horas e tendões de seus dias batendo a papelada dos chefes.
Estou a datilografar meus escritos e os escritos dos outros que passaram por mim e me levaram um pedaço. As palavras que eu esqueci de dizer em momentos importantes estarão aqui. As palavras que eu nunca deveria ter dito estarão aqui. A palavra que tem de ser gritada ao mundo inteiro... a palavra e o grito.. bem, esses eu não sei se estarão. Se porventura essa palavra primordial quiser aparecer, será bem recebida.
Poemas, poeminhas, poemetos.
Prosas, prosinhas, prosopopéias, prosódias.
Crônicas, contos, ensaios, rascunho, lixo.
Tudo virá. Não deixarei escapar nenhum.
Assim está lá no dicionário.
Que máquina seria essa, eu me pergunto. Máquina de escrever?
Ora, e o computador não é uma máquina de escrever? Muda-se a abordagem, o meio, a técnica mas, a intenção é a mesma dos copistas do séc XV, dos homens que forçavam a prensa depois que o Gutenberg teve a brilhante idéia de usá-la para fins comunicativos. É também a mesma intenção das senhorinhas dactilógrafas que passavam horas e tendões de seus dias batendo a papelada dos chefes.
Estou a datilografar meus escritos e os escritos dos outros que passaram por mim e me levaram um pedaço. As palavras que eu esqueci de dizer em momentos importantes estarão aqui. As palavras que eu nunca deveria ter dito estarão aqui. A palavra que tem de ser gritada ao mundo inteiro... a palavra e o grito.. bem, esses eu não sei se estarão. Se porventura essa palavra primordial quiser aparecer, será bem recebida.
Poemas, poeminhas, poemetos.
Prosas, prosinhas, prosopopéias, prosódias.
Crônicas, contos, ensaios, rascunho, lixo.
Tudo virá. Não deixarei escapar nenhum.
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