17 de julho de 2011

Registro Geral

Há quem diga que folhetins eram literatura de gosto duvidoso. Talvez fosse, mas a estrutura, a publicação seriada é uma ideia muito interessante. Criar expectativas, prender o leitor. Eu não tenho a menor pretensão de ter leitores esperando o final da história, mas vou publicar este conto por partes, até para uma melhor formatação no blog.



Registro Geral


Houve um dia (parecia ser uma manhã de inverno, apesar do calor que fazia nos últimos dias) que subitamente mudou o destino de 117115362-4 IFP-RJ. O clima nublado, com indícios de frio e ventos que assustavam as folhas até se tremerem todas. Depois da onda quente que despiu a cidade naquelas semanas, esse dia veio de encontro aos outros trazendo a estranha sensação de doença que acompanha a mudança de tempo.
Já há três meses 117115362-4 não via o irmão. Talvez fosse pouco tempo, mas era muito para eles que sempre foram tão apegados. Em frente à porta, reuniu todas as forças para insistir que o irmão não fosse embora definitivamente. Respirou bem fundo e pressionou a campainha com algum receio e esperou. Trinta segundos parecem dias para quem espera em frente a uma porta. Tocou de novo, agora com mais vontade. Um rangido na porta, som de passos e tilintar de chaves. Pronto, agora estava feito. Aquele coração jorrando sangue para todos os lados de dentro em velocidade absurda. Uma fresta. Uma fresta maior. Meia prota aberta e porta aberta. Decepção. Não era seu irmão.
117115362-4 suspirou e apresentou-se. A figura na porta era 280047 OAB-RJ e provavelmente aquele apartamento era sua propriedade, já que o irmão morava de aluguel. Depois de uma breve introdução, OAB-RJ sugeriu que entrassem e tomassem um café. Soube-se que o locatário havia entregado as chaves do apartamento semana passada e que havia doado grande parte dos móveis para a senhora que fazia a faxina semanal. Depois da tempestade de outubro, ela perdeu todos os móveis na inundação, coitada. Parece que a geladeira foi vendida para o cunhado do porteiro por um preço acessível. Acham também que trocou a televisão por um saxofone que valia até mais do que o aparelho. A vizinha do 704 ficou viúva ano passado e o marido era músico. O sax já não servia mais, mas aquela televisão foi colocada no quarto de hóspedes. Dizem que agora a velha andava alugando um quarto para moças, mas quem agüentaria viver ali com aqueles gatos? Pra quê tanto gato, meu Deus?
A conversa durou mais tempo do que se esperava. Muitas pessoas torcem para que apareça o que fazer aos domingos. Principalmente a tarde. A companhia era tão agradável que 117115362-4 até tinha se esquecido do irmão. O advogado era uma pessoa muito engraçada e com muito assunto. Inteligente que chegava a assustar e também parecia só. Trocaram figurinhas, trocaram elogios, trocaram telefones. Adeus apartamento 502, adeus tarde de domingo, adeus irmão. A vida tomara outro caminho.
Na terça ou quarta-feira seguinte, agora me falha a memória, falaram-se novamente, agora por telefone, e combinaram um jantar depois do expediente. Trabalhavam perto, por acaso. Talvez não fosse tanta coincidência assim, já que, no Rio de Janeiro, quase todo mundo trabalha no Centro da cidade, mas para aqueles dois era quase uma ligação profética.

11 de maio de 2011

Como eu queria escrever qualquer outra coisa que não teoria. Ando divagando sobre obras pretéritas de escritores portugueses que privilegio na minha dissertação de mestrado. Será que um dia escreverão sobre algum poema meu? Gostaria que escrevessem. Não por uma vaidade, mas uma curiosidade em saber o que teriam as pessoas a dizer.

O poema que publico hoje é o primeiro sem título. Já tentei colocar mais versos nele, mas nunca consigo. Talvez deva deixar assim. Talvez mude um dia. Talvez eu esteja enfrentando um bloqueio criativo. Talvez.



Minha vida é um partir profundo
Um mergulho de alma do tamanho da morte
Uma passagem comprada para qualquer parte
Farelo de gente jogado no mar

O descuido profético recolhe uma sombra
-------
Um passo sensível ao significado zero

Minha vida é uma viagem
de ida

18 de janeiro de 2011

Fluvial

Primeiro poema de 2011.
Como sempre, minha publicação é homeopática, mas esse é meu ritmo.
Eu não lembrava, em absoluto, desse poema que eu havia escrito. Estava em uma pasta do meu notebook junto com roteiros de viagem, reservas de hotel, tabelas com horários de trem e mapas de países Europeus. Em outras palavras, esse poema é uma Narrativa de Viagem (mais para Camilo Pessanha do que para Almeida Garrett).
Um dia ainda reescrevo essa estrofe final, mas fica aí o poema tal qual foi escrito em alguma viela de Veneza.




Fluvial

Entre vielas que se perdem
Nos caminhos que desembocam
Pelos canais que conduzem
No fundo da água reluzem
No fundo da alma recordam
O passado das águas nas margens

Atravesso depressa o Rialto
Não percebo os barcos singrados
O que os homens têm vendido
Os sinais que sigo, errados
O que eu havia esquecido
O sentido sempre inexato

E por aqueles canais estreitos
Com tantas pontes a atravessar
Percebo o estreito no peito
O labirinto que me foi feito
Um mapa pluvial perfeito
Na minha alma a encruzilhar

Seguro em minhas mãos o desespero
As águas me engolem incessantemente
O ar que me falta é sufocante
No vício permanente do meu erro
À sinistra
Afundei-me.

21 de dezembro de 2010

Um Mapa do Mundo

Cada um desenha seu mapa do mundo da maneira que pode. Aproxima lugares distantes pela memória e pela vontade. Depois de ter conhecido alguns lugares onde sempre sonhei estar, fiz a média aritmética da minha expectativa e daquilo que meus sentidos puderam capturar. Isto capturado pelos sentidos é o que Kant chamou de Real, é o que Fernando Pessoa chamou de Sensação, é o que eu chamo de parcela. O mundo tem vários mapas que, conjugados, resultam numa sucessão de mundos possíveis. O meu mapa do mundo marca lugares, pessoas e sentimentos. Meu mapa só pode ser o mapa do meu mundo.

Trilha sonora: A Map of the World - Pat Metheny



Um Mapa do Mundo

O meu mundo tem seu próprio desenho
e eu mesma tracei o mapa,
com pessoas circulando enquanto o tempo avança,
visto de uma janela como um filme que passa.

O meu mundo tem cheiro de flor e fumaça,
pelo traço de uma criança,
tem monte, tem mato, tem mar e saudade,
amores ardentes no calor da cidade,
parentes voltando no céu da lembrança.

O meu mundo tem todo um colorido
de tintas sinceras que não se apagam,
que dão forma e vida a meus sonhos, sentidos,
que, por entre as estrelas, no meu mundo, espaçam.

4 de julho de 2010

Poesia sou

Uma postagem por semana? Acho que é a primeira vez que acontece. Vou verificar.

Há dúvidas quanto ao título deste poema... na verdade não fui eu quem sugeriu este título, mas faz sentido. Bem, quem sugeriu o título sugeriu também que eu publicasse esse poema que, na verdade, não é bem meu. Ele está mais para uma apropriação das palavras de certos mortos que eu reuni, a saber, Cesário Verde, Camilo Pessanha e Antero de Quental. Mas o que somos nós a não ser a reunião das vozes que nos antecedem?

Ready made também é arte.



Poesia sou


A dor humana busca amplos horizontes
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
E tem marés de fel como um sinistro mar...
Mas na imensa extensão onde se esconde
A dor forte e imprevista
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso
Eu sigo, como as linhas de uma pauta,
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
Exaustos e curvados,
Escravos condenados,
Em negro recortados.

Disseram que era um Deus... e amortalharam-me!
Como se eu fosse alguém! Como se a vida
Pudesse ser alguém! - logo em seguida
Junto do mar sentei-me tristemente.
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Resplandecente e imenso
Um bramido, um queixume, e nada mais.

23 de junho de 2010

Paisagem Húngara

Poema escrito no chacoalhar do trem de Zagreb para Budapeste. Se eu lembrasse que tinha esse poema aqui no computador, não teria ficado tanto tempo sem postar.
Penso em mudar alguns versos, mas vou publicar mesmo assim...

Textos visuais fazem bem pra alma.



Paisagem Húngara

O céu riscado pelas nuvens traçantes,
tangentes ao cinza acumulado,
são ângulos desenhados pelos raios
do sol que se esconde em vergonhas.
As casas dispersas, largas, perdidas,
floreiam no entorno da estação
e o Lago estagnado se esverdeia de coníferas.
Atravesso um rio que desconheço.
Vejo casas de singular arquitetura.
Vejo o azul que em todo o mundo é o mesmo.
Vejo o mesmo que minha mente procura.
O cenário tão distinto de um lugar que nunca vi
causa-me imensas saudades.
Sinto falta das tropicalidades
apesar do calor daqui.

9 de fevereiro de 2010

Limites

Poema mais que recente. Feito hoje, depois de um hiato poético.
Minha mente às vezes aparece com cada coisa que nem eu entendo...



Nos espaços inacabados entre eu e mim
Desenho os esboços roçados nos cantos
Os muitos abismos do sujeito objeto
Entornam o estilo dos ancestrais escritos consagrados por sua [precisão e perfeição de artíficio.
A memória rastreia a beleza em uma leitura scanning e retorna de [viagem com a lembrança daqueles quadros estacionados no [Museu do Prado.
Vem as cores, vem as cores, mas as palavras andam por aí [perdidas como as constelações que são apenas pontos e não [signos do zodíaco.
Os cálculos aproximados do limite da alma estão errados.
Não sei fazer cálculos, nunca soube.

12 de dezembro de 2009

Convite

Bem, hoje não vou postar nenhum poema, mas sim o Convite para a Cerimônia de Lançamento do Livro no qual terei textos publicados. Meu nome aparece aí na lista de escritores nas categorias Conto e Poesia, é só clicar na imagem para ver em tamanho grande.

Sintam-se convidados!


26 de novembro de 2009

Gare du Nord

E lá venho eu de novo com ótimas notícias!

Este blog me dá sorte. Desde a sua criação sempre tenho coisas boas para contar aqui. É claro que algumas tristezas também me abateram durante a existência dessa página, mas essas eu guardo para mim.

O que tenho para contar hoje é que terei mais dois trabalhos publicados. Estou feliz demais! Outro conto meu sairá em coletânea, dessa vez pela EdUFF (Editora da Universidade Federal Fluminense). Fiquei muito satisfeita pela classificação com o conto, mas confesso que fiquei ainda mais contente porque também fui uma das vencedoras na categoria Poesia. Pela primeira vez terei um poema publicado em livro e a primeira vez, a gente nunca esquece. Segue então o meu poema vencedor, uma singela homenagem à cidade Luz, tantas vezes contada e cantada.

Quem vai a Paris e não se sente artisticamente tocado, não tem coração.




Gare du Nord


Agora desejo partir-me ao mundo
Procuro perder-me entre as estações
Por entre calçadas, homens, nações
Quero o distante, o presente, o profundo

Vou contorcer-me nos ferros dos trilhos
Tantos ferros retorcem na cidade
Deixo na “Gare” o resto de saudade
Adeus ao país, ao passado, aos filhos

No vagão das viagens, vivo só
Não tenho endereço a que me escrevam
Esqueço-me acompanhada de impressos

Apanho o T.G.V. na Gare du Nord
Acerto entre caminhos que se erram
Sem raízes, só me prendem os versos

11 de novembro de 2009

Poema inacabado

Bem, uma postagem por mês é quase bom para quem não tem escrito muito.
Minha produção poética anda em baixa e, coincidentemente, estou com várias idéias para escrever prosa. Há pouquíssimo tempo atrás isso era impensável pra' mim.

Eu sou meio atrasada virtualmente e só ontem resolvi criar uma conta no Twitter. É interessante, embora eu ainda não saiba usar direito. Aos twitteiros de plantão, o endereço é twitter.com/datilografia .

Poema Inacabado

O meu amor é daqueles não definidos
Isso para amor é qualidade
Tudo que é definido
É limitado.
Meu amor é como pena voando no papel
A pena quando vai pro papel não voa
Voa mais do que deveria
Meu amor é vento no rosto
É brinquedo novo de criança nova
É cheiro de mato na viagem
É canção bonita em Dm.
E apesar de tudo isso
Para minha ironia
Não consegui até agora
Definir o meu amor
Ainda bem
Isso para amor é qualidade.

2 de outubro de 2009

Vivem os homens às Artes

Após um longo hiato de postagens devido, principalmente, a minha falta de tempo quando morava na Europa, resolvi recomeçar. Para me dar ânimo, fiz um novo layout para o blog. Eu gostava da antiga aparência monocromática, mas estou atualmente em um estado de alma colorido com tons pastéis e estou bem assim.

Vou postar um poema meu bastante antigo mas acho que se relaciona com a minha atual fase poética. Ando com a necessidade de excesso musical nos meus últimos escritos e já há algum tempo não consigo escrever poemas sem aliterações. Acho que li Cesário Verde em demasia quando estive em Portugal...

Ainda bem.


Vivem os Homens às Artes


Às artes, mais que aos homens, cabem
Respeito ao trabalhar-lhe e Amor no fazer
Pois amor é necessário para se ter
E respeito é necessário com que se tem

Ela exige respeito
Pois possui leis próprias
Que até mesmo desconheço
Mas que, cego, obedeço
Ao tentar contar as histórias
Que lhes são de direito

Não tento fazê-la
Pois já está feito
Tudo aquilo outro
Que no mundo existe
Mas a idéia que persiste
É de transformar em ouro
Todo o bruto conceito
Que insiste em sê-la

Peço somente que me agracie
Que me ceda uma pouca infinitude
Própria, única e sua
Para poder dizer que me pertence
Aquela extensão que me cabe
Mesmo quando se sabe
Que, ao menos, pretende-se
Somente vê-la seminua
Sem minha interferência a amiúde
Para que alguém a aprecie

Dou a ela o que já tem
E que me retribui de bom grado
Pois o que me pede
Além de respeito,
É que em toda minha sede
Não seja eu desatinado
E só use as notas que convém.

Como todo o resto das coisas
Ela só faz questão daquela uma,
E se tudo busca harmonia
Porque então com ele haveria
De ser outra coisa importuna?

Seu equilíbrio então transmuta
No bailar de seus acordes
Baila a pena e a batuta

Vivem os homens à poesia e à música.

25 de março de 2009

Desistente

Meu primeiro post após pisar em solo Europeu. Cá estou, atordoada de novidades, desesperada por conhecer tudo e extremamente cansada. Não faz mal.


Hoje, depois de uma conversa com caríssimos brasileños que também estão vivendo em Lisboa, fiquei pensando se não seria melhor chamar o blog de "Dactilografia". Depois do Acordo Ortográfico essa grafia parece um preciosismo e eu gosto disso.

O poema é antigo, melancólico e não se relaciona com meu atual estado de espírito, mas andei lembrada dele. Depois escrevo outro texto menos desacreditado para não pensarem que ando com tendências suicidas em Portugal.

Desistente

A ânsia bate a porta
Tenho nojo
Não mais de mim mas,
do que me tornei.
Preferia a normalidade
Ser alheia
E não ver as coisas
Como elas realmente
Pensam que são.
Dos outros tenho pena
E a pena
É sempre a inveja em ser,exatamente,
Tão pequeno quanto.
Queria eu ser contente
E não atenta
E perceber nas minúcias
Que não há nada ali para ser reparado.
Queria sentir a falta daquele que partiu
Chorar de saudade
E pensar ser completa com sentimentos medianos.
Acima de tudo,
queria ter raiva.
Eu só tenho sonhos,
Apesar
E uma mente pueril, maculada
por mais que nova, já cansada
E dos sentidos,
Desistente.

4 de fevereiro de 2009

Fogo de Penitência

Poema escrito em 2006. Uma das minhas primeiras tentativas de fazer um texto que dialogasse com Fernando Pessoa. Ao ler recentemente o ótimo texto da amiga e escritora Ana Helena , lembrei-me que havia um dia escrito uma conversa em versos com o professor e que este diálogo devia estar perdido pelos meus arquivos antigos. Um dia devo reformulá-lo, mas deixo aqui o texto tal como foi escrito no meu primeiro ano de faculdade.


Fogo de Penitência


Toda a poesia malfeita se esvairece
A exorcizo em pira inquiridora
E no contorcer de suas chamas brancas,
Se internaliza até chegar ao átomo.

Todas as fogueiras não queimadas
Queimam no amassar do papel
Me atentam agora os sentidos e ouço claramente
No ranger da folha, o carbonizar da lenha

Se alguma Pessoa acha chuva na escrita
Eu afirmo que houve fogo anterior
A própria chuva que não chovia
E então meus olhos descobrem:

A água que cai e leva
Por vezes flui como nascente calma
Por outras, seu rebento lembra maré revolta
Que revolve cada gota e arrasta de volta ao nada.

Meu rosto sua ao segurar o grafite.
Há o medo de que as palavras sejam elas
E não que elas sejam as que queria eu que fossem
E tenham vida, gosto e não me obedeçam.

Toda palavra carrega o mal de ser minha
E eu carrego o dom de ser para elas
E eu as descarrego em fúria sobre a pauta
E elas me carregam até onde eu nunca chegaria sozinha.

Malditos os poetas que me deixaram ter rebanhos
Pois levo comigo a certeza de que há, em mim, um campo de girassóis
E por isso sofro:
Não consigo olhar para todos os lados.

Garanto porém, que se eu conseguisse,
Não estaria cá agora sonhando em poesia
Pois assim perderia tempo
Em sentir as relvas todas do mundo nas minhas mãos

Mas deixem descansar as relvas
Aprendi que só penso que seja maravilhoso tocá-las
Porque nunca em minha vida
Tive a oportunidade de deitar-me sobre elas.

Porém a água abrandou o incêndio
E a cada momento ela se faz mais intensa
E agora sei que é inútil acender fogueiras
Quando a chuva insiste em mostrar que só faz chover

Concluo que o poeta é iluminado pela chuva
E que o sol é o que evapora as coisas do mundo
Deixando-as claras diante dos olhos
Para que elas se reafirmem nos poemas

E que se tudo é nebuloso
Nuvens, idéias, pessoas
Espera pacientemente pelo vento
Que um dia fará derramar em ti.

Malditos os poetas que me levaram a bailes de máscaras
Pois descubro que nunca mais verei almas
E coloco agora a veste que tentaram me tirar Eles mesmos
E espero frente ao espelho branco ver-me nua uma vez

Intuo porém, que caso visse
Ao me deparar com a minha desgraça
Queimaria tal espelho por desgosto
E voltaria à dança por vergonha

Mas deixem bailar o corpo
O corpo de baile, o corpo da bailarina
Pois estes são mais agradáveis de observar
Já que os olhos são cegos para ver.

Então vou-me, vai-se e segue o dia
Como aquele que espera a noite
Cansado por entardecer
No crepúsculo dos anos que se passam

Sinto-me agora como dia que amanhece azul
Daqueles de palidez celeste
Que desponta após a tempestade
E se ilumina como se fosse uma coisa só

E não será mais necessário
Fazer fogo de penitência
Culpando as palavras mal escolhidas
Por um erro que é meu

E na dificuldade de expressar a integridade
Se afirmo que a mim pertence o erro
Ao menos confirmo
Que elas [ainda] são minhas

Então eis que na sensação de escrever o que me guardava
Transbordo os meus nimbus em mim, para mim
E afirmo sem medo:
Eu chovo.

21 de dezembro de 2008

Fugidias

Antes de publicar o poema, quero contar a minha vontade de gritar ao mundo. É a segunda boa notícia que posto aqui. Tomara que permaneça desta forma.

Recebi uma carta ontem que me fez chorar de alegria.. um sonho se realizou: Vou para Portugal estudar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Vou morar sozinha em um país desconhecido, mas o que importa? Vou estudar na mesma Faculdade que estudou Fernando Pessoa e vou cursar a disciplina "Estudos pessoanos" só para entender melhor o bigode. Estou nas nuvens, absolutamente. Quero mesmo estar nelas em fevereiro, quando vou voar para minha nova morada...

Fugidias

Todas as palavras
implodem
Seguras,
no limiar da vontade
Escandalando dentro
por contenção.
Querem eclodir
Não podem
Há vergonha e
orgulho.
Ficam suspensas no vértice
Quase fugidias no ápice
Depois se agarram ao pretérito
Passa o momento
Ninguém saiu.

19 de novembro de 2008

Sê frágil

Pura pobreza poética. Desabafo com a anomalia do verso mas, desabafo meu. Confesso que queria não ter o vício de escrever no papel para poupar a vergonha de não ter os manuscritos já transferidos para o computador.



Sê frágil

Da condição humana
Talvez a única que seja
realmente digna e sincera

Mostrar forças desgasta e consome
Quebra tua casca mentirosa
Hipócrita!
Mostra que chora!
Que teme!
Que isto significa tudo
E nada é a tua inércia
incapacidade
falta de ousadia
Que não diz que ama pois,
Tu, alma desperdiçada,
Não vales a pena.
O outro merece toda lágrima
tristeza, morte lenta
Porque te rejeita
e é capaz disso.

Sê digno da doença que é tua
E descanse em caos.

30 de outubro de 2008

Encontros Fortuitos

Querido amigos que aqui me visitam,

Tenho o prazer muito grande de compartilhar com vocês uma experiência inédita e maravilhosa.

Meu conto "Encontros Fortuitos" ficou em 8º lugar geral no 19º Concurso Nacional de Contos Paulo Leminski, recebendo Menção Honrosa pela Banca Examinadora e será publicado em uma coletânea de novos contistas brasileiros.

Esse concurso foi o primeiro em que me inscrevi e, sinceramente, não esperava nenhuma premiação. Ter garantido essa publicação logo de cara me dá muito ânimo para continuar escrevendo e enviando meus trabalhos para o conhecimento de terceiros.

Este conto foi escrito, na verdade, como trabalho final da disciplina Literatura Portuguesa IV quando eu tinha 19 anos e estava no quarto período da faculdade. Tem 7 páginas e trata de uma prostituta que se vendeu a todos os heterônimos de Fernando Pessoa. Tinha que ser, aquele Bigode ali em cima sempre me dá sorte.

Poderia publicar o Conto aqui mas, como quero que vocês comprem o livro, não o farei.
Também não postarei nenhum poeminha hoje... estou feliz demais para os versos melancólicos salvos no meu HD.

Agradeço sinceramente a todos que me leem.

Um beijão,
Gabi.

24 de outubro de 2008

Poesia em cinco minutos

A inconstância.. mal se começa a Datilografar e já se abandona a tarefa. Queria mostrar isto aos outros para que me lessem. Penso e me canso. Preguiça de me expor, preguiça de ser julgada, preguiça de me compartilhar. Estou online, eu sei, mas vinde a mim os Internautas que eu vou Argonauteando por aí...


Poesia em cinco minutos

A ilusão do saber
A consciência dos sonhos
A lucidez dos delírios
A loucura submersa da razão
A trama dos vapores
A conjuntura das areias
Todo o resto não.
E sê nada.
Além disso.

6 de outubro de 2008

Personal Development

Fiz esse poema originalmente em inglês e resolvi traduzir.
Sem sucesso na minha tentativa, resolvi publicar em inglês mesmo.

Personal Development

Reaching what is beyond
being the over
Winding rarely
Breathing Silently
Standing on my own
Laying my soul
Renting my body
for astral influences
Look carefully
It is an aural minute.
The spirit has no frameworks.

1 de outubro de 2008

Corpóreo

Fiz para ele, inevitavelmente.

Corpóreo

Nos caminhos tortuosos,
Sinuosos, entorpecentes,
Teu corpo me aflora,
me desvela, me desmente
Nomina minhas taras
Minhas caras, minhas falas
Descobre meu corpo
Meus males, meus medos,
Meus seios, meu pior,
Meu melhor e meus meios.
Ecoa no fundo,
no surdo, no toque
Altéreo e Estático
Penetra e retumba
no brado, no braço,
no grito, no seco.
Beija e transpassa
Transcende, atravessa
O gozo no fim.
O amor. A promessa.

26 de setembro de 2008

Do amor, a raiva.

Antigo, mas um poema importante para mim. Marcou a fase na qual eu comecei a escrever com um objetivo. O objetivo mudou, mas eu continuo escrevendo.


Do amor, a raiva

De todo o amor que tenho
Sinto raiva
Raiva não de tê-lo
Mas de ser aquele, a mim
Mais justo.
A solidão é conseqüência
Conseqüência de qualquer amor
que seja verdadeiro
Pois os amores correspondidos
São medíocres
E os amantes
São doentios.
Minha raiva faz pulsar
Se sinto a vida
É porque ela está na solidão
E todas as felicidades
Não me competem.
Os amantes não sentem
O sangue não corre
Não percebem a morte
que se aproxima.
A morte é conseqüência
Daquilo que faz pulsar
E se morro
Um pouco mais a cada dia
É porque ainda existe
Alguma vida.
Escolhi a taquicardia
Definhar lentamente
E é nos braços do vazio
que me embalo
E só não sou melhor por isso
Porque ainda busco
Em outros braços
Algum consolo
Se não seria plena
Plena incompletude
E enfim humana
Por isso.